Negócio da Quebrada

Alvimar da Silva, fundador do Jaubra, encontrou uma maneira de melhorar a mobilidade urbana de seu bairro e agora quer expandir o modelo de negócios para outras periferias do país

Empreender é explorar demandas reprimidas. Alvimar da Silva, de 51 anos, é a prova disso. Há dois anos e meio, o morador da Brasilândia, um dos bairros mais violentos e populosos de São Paulo, decidiu fundar o Jaubra, serviço de transporte voltado exclusivamente para a região. Como os aplicativos famosos não chegavam até o local, que possui cerca de 300 000 habitantes, ele enxergou uma oportunidade. Com o apoio da filha Aline Landim, de 30 anos, transformou o pequeno negócio numa startup com 20 000 clientes cadastrados e 50 motoristas — há mais 500 na lista de espera — que atendem mensalmente 3 000 passageiros. Até o final deste mês, a empresa lançará o aplicativo próprio, dando o primeiro passo rumo à expansão a outras regiões periféricas do país.

Como surgiu a ideia do Jaubra?

Eu já era motorista de aplicativo e, em vez de sair cedo para atender a área central, ficava aqui na região. Com o tempo, os aplicativos começaram a vetar algumas comunidades, incluindo a Brasilândia, por considerá-las áreas de risco e difícil acesso. Quando fazia uma corrida para o bairro, sempre me diziam que eu havia sido o único a aceitar. Então imprimi 500 cartões de visita e distribuí às pessoas oferecendo meu serviço. A partir daí, não tive mais vida. Meu telefone tocava o dia inteiro, até de madrugada. Como era muita gente, comecei a delegar corridas a amigos. O cliente ligava e, se eu estivesse ocupado, pegava as informações de destino, entrava em contato com um colega e retornava ao passageiro passando as informações do carro. Eu não cobrava nada por isso, só não queria deixar o cliente na mão. Foi assim por uns dez dias, até que resolvi montar o negócio.

O processo começou de modo bastante analógico. Quando foi que vocês passaram a adotar tecnologia?

No início, eu usava duas folhas de papel e um carbono para anotar as corridas. Uma via eu entregava para o motorista, e a outra ficava comigo. Até então eu era muito “ogro” e mal sabia mexer no WhatsApp. É aí que entra minha filha, Aline, na história. Ela era bancária e me ajudava no atendimento após o trabalho. Foi ela que me incentivou a encontrar uma solução. Com oito meses de atendimento, alugamos uma plataforma, mas começou a dar problema. Como o boca a boca foi muito forte, não dávamos conta de atender. Começaram a dizer que eu estava fazendo propaganda enganosa. Então fechamos a plataforma para os clientes e passamos a usar só para localizar motoristas. Hoje atendemos via WhatsApp e telefone fixo.

Mas a operação está funcionando bem dessa forma?

Não, o sistema está sufocado. Fazemos cerca de 3 000 corridas por mês e só não crescemos mais por falta de carros. Na plataforma atual, temos de pagar por cada motorista cadastrado e tenho 500 deles interessados na fila de espera. Agora estamos na fase final de testes e vamos lançar nosso aplicativo nas próximas semanas. Mesmo assim, não vou parar de uma vez o atendimento via WhatsApp e telefone. Temos diversos clientes idosos e analfabetos e recebemos muitos pedidos por áudio. É nosso diferencial.

Agora que vocês terão um aplicativo próprio, há planos de expansão para outras regiões além da Brasilândia?

Já estamos recebendo chamadas de bairros próximos, como Casa Verde e Limão. Mas outro dia nos ligaram até de Higienópolis [bairro nobre de São Paulo]. Como tínhamos um motorista próximo, conseguimos atender. Estou em contato com associações de outros bairros periféricos das zonas leste e sul e fui procurado por pessoas de Salvador, Brasília e Rio de Janeiro. Com o auxílio da Banca [aceleradora social que atua em parceria com a Fundação Getúlio Vargas], estamos finalizando nosso plano de negócios justamente com foco na expansão.

Os aplicativos de carona famosos alegam falta de segurança para não atender áreas periféricas. Vocês não enfrentam problemas desse tipo?

No início, tivemos assaltos. Então eu comecei a dar palestras para a molecada. Explico que levamos a avó deles ao hospital, a mãe deles ao supermercado e eles aos bailes. Depois que fiz isso, melhorou. Estamos há cinco meses sem registrar assaltos. Também damos um adesivo do Jaubra aos motoristas para que coloquem no carro e tenham respaldo da comunidade. Quando eles fazem o cadastro, é a primeira coisa que pedem. Aí eu brinco que o adesivo não dá imunidade a ninguém.

Mais que transportar pessoas, você diz que sua empresa cumpre um papel social. Por quê?

Sempre trabalhei em ações sociais do bairro e vejo a deficiência de mobilidade na região. Muitas vezes, fazemos até o trabalho do Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]. Dependendo do dia e do horário, a pessoa liga para o serviço, e eles não atendem. Já fizemos vários atendimentos de emergência. Ao passar pela aceleração, entendi que a empresa agrega valor aos moradores da comunidade, eleva a autoestima, melhora a renda per capita na região e cria oferta de emprego. Contratei gente daqui para fazer parte da equipe: há um garoto no marketing, outro na TI e o presidente da associação de moradores auxilia com a documentação. E tenho ex-presidiários atuando como motoristas. A maioria dos que trabalham conosco são pessoas que eu já conhecia e em quem sei que posso confiar. É uma forma de ressocialização. E as pessoas que já passaram pelo sistema prisional são as que me dão menos problemas. Há um respeito muito grande pela oportunidade.

Como foi deixar o volante para assumir uma posição de gestão?

Minha mãe tinha uma oficina de costura e sempre chamou o pessoal do bairro para trabalhar com ela, então isso é normal para mim. Além disso, empreender é muito legal. Estou fazendo várias parcerias, consegui descontos para os motoristas em tudo quanto é lugar, e as portas estão se abrindo. Mas não é fácil, trabalho de segunda a segunda.

A maioria das pessoas acredita que é preciso ter muito dinheiro para começar um negócio do zero. O que diria a elas sobre isso?

No começo, não tínhamos nada. Um amigo cedeu espaço na garagem para criar um ponto de apoio aos motoristas, porque eu não tinha dinheiro nem para comprar mais um aparelho de celular. Minha filha, Aline, doou um notebook e, quando saiu do banco, colocou 30 000 reais da rescisão. Depois, nós recebemos 52 000 reais de capital-semente. Esses valores foram fundamentais para avançar o negócio. É complicado empreender na periferia. É preciso ter boa vontade, foco e saber que vai ralar muito. Por enquanto, nós ainda não temos lucro. Tudo o que sobra é reinvestido em tecnologia.

Se pudesse dar um conselho a quem deseja empreender, qual seria?

É importante encontrar um nicho de atuação. Outro ponto é se certificar de que você não está fazendo uma coisa só para si mesmo, mas procurando resolver um problema de fato. No meu caso, foi surpreendente quando descobri que tinha criado uma startup de inclusão e não de transporte. Também é preciso ter em mente que muita gente espera para ver o que vai acontecer antes de ajudar. No início, as parcerias eram poucas, mas hoje o pessoal já entende que o negócio tem escalabilidade. Eu mesmo não esperava um sucesso tão rápido. Às vezes, olho para trás e não acredito nas coisas que estão acontecendo.

"No início, tivemos assaltos. Então comecei a dar palestras para a molecada."



Agora | Entrevista com o presidente

Matéria: Juliana Américo

Foto: Alexandre Battibugli

Parceria: Você S/A

 

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